26 de janeiro de 2026

Sonhar é grátis

Olá, pessoas giras!!

Hoje foi dia de alargar horizontes, sem sair da mesa e da cadeira do escritório, mas a voar mesmo muito alto. Entre esta cadeira e este computador vive alguém com medo do sucesso e com medo da abundância, mas que andou a passear em Nova Iorque no seu fato Massimo Dutti, durante a hora de almoço (só porque sonhar é grátis).

Desde semp... Muito cedo, que me lembro de dizer que nunca ia ser mãe porque não queria ter que abdicar da minha carreira. E, embora identifique e reconheça todas as competências que uma mulher aperfeiçoa após a maternidade, continuo com sentimentos divergentes sobre a possibilidade de conjugar as duas coisas.

Como boicotar a maternidade estava a ser um peso grande demais para carregar, porque a pequena Princesa apesar de me ter escolhido para mãe, não pediu para nascer e não tinha que lidar com isso. Optei por boicotar a carreira, porque é mais fácil e simples ainda que não faça sentido nenhum.

Se eu me mantiver ali no modo mediano, não tenho tiques de vedeta, não me valorizo demais e sinto-me uma pessoa normal naquele que é agora o meu contexto quotidiano. E esta realidade é algo de muito assustador que acaba sempre comigo a dizer "estar aqui é o melhor para a Catarina mas não é o melhor para mim". Mas a verdade é que não posso colocar a minha vida em pausa até ela atingir a maioridade (apesar de eu acreditar que quando chegar ao 10º ano, ela vai querer para ela algo que não passa por esta escola secundária aqui).

Claro está, que se eu fosse trabalhar para outro código postal no mundo (e não no país), isso seria algo que acontecia naturalmente e a piquena lá ia estudar uma cultura diferente da nossa (sim, o pai dela ia espernear mas ia perceber que é alimento para a alma). E Nova Iorque soa imensamente bem neste contexto, que a empresa nova até tem lá escritório, mas o bom ordenado ainda não dava para suportar o custo de vida (e da educação) lá daquele lado.

Não quero mostrar ao mundo que, para se fazer diferente, só é preciso querer diferente. E eu quero diferente para mim, mas não quero tornar isso uma realidade.... Como é que eu vou explicar ao mundo que consigo ser válida a nível profissional, boa mãe e independente!? A aldeia que é precisa para criar uma criança não está pronta para lidar com isso!

Se gostava de ter o melhor dos dois mundo? Gostava. Se já estou mentalmente disponível? Acho que não. Mas... Há uma loira na minha vida a tentar mudar isso (se alguém quiser o número dela eu partilho, já que terapia de verdade é a melhor coisa que inventaram no mundo!).

Boa semana!!

25 de janeiro de 2026

Sempre a aprender

Mãe, estás a jogar outra vez!? Não gosto que estejas tanto tempo no telemóvel, nem gosto que estejas a jogar.

Porquê, coração?

Não faz bem. O jogo vai te deixar tonta da cabeça.

22 de janeiro de 2026

Lisboa e a chuva

Dia de trabalho em Lisboa.
Está de chuva.
E o meu cérebro pensa: "Lisboa e a chuva, outro fenômeno que não entendo".

Depois reparo na expressão que usei (foco no OUTRO) e fico a rir sozinha.

#istoeleveza

21 de janeiro de 2026

Incêndios Urbanos e não só

Era um lindo dia de manhã, de madrugada, em que deixei a piquena na escolinha e me preparei para ir até ao quartel, fazer um teste que tinha deixado pendente da noite anterior (fruto daquelas coisas bem combinadas e com a devida antecedência, mas que eu bati o pé porque tinha a Princesa comigo).

Era um lindo dia, frio, de sexta-feira. Seria o primeiro dia de uma nova aventura, sair do quartel com a turma de formação, ter formação fora e pernoitar fora de casa. E eu, como chefe de turma, fui chamada para identificar o material que iríamos levar.

Eis que, de repente, estou a ser chamada para a sala dos chefes, e recebo um valente sermão... Sobre pessoas que querem ser protagonistas, pessoas que se julgam melhor que as outras, pessoas que se querem destacar. Sobre pessoas que não têm noção de compromisso e não entendem que não podem desistir das coisas de um dia para o outro, porque isso impacta toda a turma. E muito mais disto.

Neste momento, toda a vontade que eu já não tinha para ir até Fanhões, morreu. E a loira da minha vida só me fez sentir que o que tinha começado como uma lufada de ar fresco, rapidamente se transformou num cenário de tortura. Mas, era uma formação que estava a meio, e lá me orientei para me fazer à estrada.

Ainda não tínhamos terminado o primeiro exercício da formação, e já este cenário estava a ter uma mudança radical com requintes de malvadez. Comentei que tinha estado a receber um sermão gigantesco e ouvi um "Alguém fez queixa de ti. Não gostava que o fizessem comigo, também não gostei que o fizessem contigo". E perdi o chão.

A cabeça viajou, o espírito colapsou e eu perdi-me de mim. Tentei colar todo o discurso que tinha ouvido em mim, e nas minhas atitudes, e, depois de anos e anos a lutar para reconhecer o meu valor próprio, estar alguém a pedir-me que me anulasse e ignorasse o meu valor, sem sequer me dizer o que efetivamente eu tinha feito e sem ouvir a minha versão da história, deitou-me por terra.

Cavalheiros, como bombeira sou 0, ainda que duvide muito que estejamos todos ao mesmo nível (e duvido também que a formação tenha feito alguma diferença nisso - a não ser quando aprendi que o bebé nasce dentro da placenta, andei enganada estes anos todos), mas estou muito longe de ser igual. Se eu gostava de ser uma cabeça de alho chocho rodeada de gomos de tangerina? Amava! Mas nunca seria a mesma coisa.

Nessa noite, pensei arrumar a tralha e vir embora. Agarrei-me à pouca força que ainda tinha e contive o grito de raiva "qual de vocês é que teve a lata de fazer queixa de mim mas não é crescidinho o suficiente para me enfrentar cara a cara!?". Claro está, que se já me tinham perdido antes (com um sermão que eu não entendia), o resto do fim de semana foi feito a mínimos olímpicos.

Sim, adorei ter chamas a rolar por cima da minha cabeça. Sim, adorei perceber a dinâmica dos procedimentos, é super fácil entender metade das coisas quando se conhecem os conceitos básicos como "ar quente sobe". Mas... Senti sempre que aquilo não era para mim. E mesmo que quisesse pensar que a ajuda que queria efetivamente dar, era na emergência médica, não preciso de ninguém a pisar a minha sanidade mental.

Uma pessoa pensa abdicar do seu tempo, para que outros possam ter mais qualidade de vida e é assim que nos tratam, com acusações infundadas que não seriam repetidas se eles não acreditassem nas mesmas. Zero que preciso disso para mim! Prefiro formar um grupo de auto-ajuda que fica em silêncio e sem telemóvel, várias vez por dia e por semana 😂

Estava a tentar provar o quê e a quem? Que há lugar para mim e para ser valorizada na vila, que também para mim fiz o certo ao voltar para a terrinha... Mas é mentira, mentira! E o aperto no peito que é ter que dizer ao meu sobrinho, vou desistir pelas mesmas razões que tu, pessoas a serem pessoas.

Estava a valer a pena? Teve muitos bons momentos, teve situações giras, teve experiências do caraças... Nas primeiras semanas. Nas últimas, deixou de ser uma coisa leve e passou a ser um frete, sem planeamento, com datas e obrigações que simplesmente apareciam do nada.

Se custa desistir? Horrores! Não me conheço por desistente, mas a minha teimosia não ganha à minha sanidade. Vou abraçar o meu afinal-ainda-não-é-desta "padrinho", vou agradecer ao Segundo Comandante (apenas pelos nossos momentos de regresso ao passado) e atribuir a culpa ao corpo e ao avançar da idade (se alguém espera de mim que vá comprar guerras nesta altura, estou fora).

Afinal, vou apenas mostrar que aprendi algo com eles... Primeiro eu, depois eu, a seguir eu e depois os outros!

12 de janeiro de 2026

Eu e o meu novo eu

Olá, pessoas giras!

O novo ano ainda agora começou e já vem carregadinho de desafios para pessoas crescidas...

Do lado do quartel, e da formação de bombeiros, veio um "temos que despachar isto e pôr tudo a mexer". Andámos a ter formação todas as noites e a fazer práticas de trauma como se não houvesse amanhã (e sim, fiquei traumatizada e não fui a única, e digam o que disserem mas eu sei que na vida real nada vai funcionar assim). Nem deu tempo para me endireitar dessa sessão de pancada, e já estávamos a mudar o registo para os Incêndios urbanos e andar com as garrafas de ar às costas (aventura que vai a meio e espera-se para a semana uma bela continuação do evento, em Fanhões, dentro de um contentor a arder...).

No meio desta brincadeira, ia ser uma pessoa crescida e fazer voluntariado nas mesas de voto, mas esse objetivo e a respectiva compensação monetária (que eu acho mesmo piada a esta coisa de ser paga para fazer voluntariado, quando comparam esse valor ao que eu efetivamente ganho) morreram na praia.

Eu, uma gaja crescida e com idade para ter juízo, mãe de uma quase jovem de 5 anos, ainda acredito que dá para tudo (só não acredito que não seja preciso fazer escolhas para que isso funcione pelo melhor). E cheguei a uma fase em que não sei se quer o que faz sentido escolher. Zero paciência para aquele que era o meu spot favorito, porque toda a gente acha que tem que andar meio mundo atrás de meio mundo. Zero paciência para pessoas que só querem fofocar (e isso baixa a minha vibração zen). Zero paciência para falar sobre as aventuras no quartel e fazerem me sentir que é algo ofensivo. Zero paciência para pessoas que não fazem por serem felizes mas depois querem vir desequilibrar a minha felicidade.

Posto isto, só me ocorre dizer que o cansaço não é, e nem será nunca, um bom conselheiro. Tenho dores em músculos que já não me lembrava de ter, tenho uma dívida gigante de horas à cama (porque sair para celebrar aniversários e ter que cumprir horários no quartel, não são atividades compatíveis).

MAS...

Há uma esperança gigante que depois da tormenta chegue a calma. Ficam a faltar apenas dois módulos de formação, passam a existir fins de semana mais calmos e o natural encadeamento da vida voltará a existir. Pensamento positivo.

De uma pessoa cansada para o mundo: Boa semana!

5 de janeiro de 2026

Obrigada, 2025!

Olá, 2025!

Chegou, finalmente, a hora de nos despedirmos, de fazer o tal do balanço anual daquilo que me proporcionaste ou que permitiste que eu me proporcionasse a mim mesma (cada um que leia o que quer).

Serás sempre o ano do novo T3, visto que foi o ano de me assumir no meu próprio espaço e começar a viver, mais do que sobreviver. Simultaneamente, foste também o ano de interiorizar o divórcio... Digam o que disserem, o reflexo do divórcio, da vida focada na individualidade a par com a maternidade e da pseudo solidão só chegou contigo (o ano anterior foi apenas de tentar manter a cabeça acima da água e tentar sobreviver, sem ceder aos instintos homicidas) e esse ano e pouco de atraso fez estragos simpáticos.

Noutra vertente, foste o ano do corpo entrar em histeria. O coitado percebeu que dar dicas e falar baixinho não ia resultar e começou a gritar para se fazer ouvir. Gritou que o sono fazia falta, gritou que o álcool fazia mal e gritou algo que só aprendi a ouvir bem mais tarde ("primeiro EU, depois EU, a seguir EU e depois o outro). Infelizmente, não é uma porta que fica fechada (ainda há uma bactéria para erradicar do estômago e um vírus nas partes íntimas) mas é um trabalho bem encaminhado.

Se tu fosses feito apenas de 6 meses, terias sido um ano negro e brutalmente aborrecido. Felizmente, este último semestre trouxe-me algo de mesmo muito bom. Algo que ao fim destes anos todos, de vida, eu já estava pronta para receber. E estes últimos 6 meses fizeram de ti um ano imensamente memorável.

A parte "chata" é que foram estes meses que te definiram, que mudaram o meu mundo (e até a minha vida) e que tornaram fácil identificar a tua palavra chave: TERAPIA. Eu nunca dei crédito à terapia, mas sempre senti que a medicação é apenas uma forma de esconder o verdadeiro problema, portanto, quando apareceu uma loira na minha vida disposta a mudar isso, com recurso ao humor, dei-lhe o benefício da dúvida. E foi o melhor que fiz!!

A forma como me vejo mudou, a forma como interajo com aqueles que me rodeiam mudou, portanto, a minha vida mudou! Agora, há relações que sei que serão eternas, mas com a certeza que os seus contornos serão bem diferentes e que os meus limites estarão bem à vista (super pronta para relações das quais não dá para fugir mas que podem muito bem passar sem serem alimentadas). Para o bom e para o mal, se quero ser a média das 5 pessoas com quem mais me relaciono, quero atrair pessoas de bem com a vida, de ânimo leve, sem recalcamentos e sem necessidade de me deitar abaixo a cada duas frases, quero pessoas que aplaudam os meus sucessos com sinceridade e sem interesse.

A maternidade ganhou novos contornos e foi pintada com laivos de arco-íris, sem necessidade de máscaras ou de óculos imaginários. Assumiu-se em pleno, sem amarguras, e com a certeza que uma mãe que descansa e dorme é 1000 vezes melhor mãe e que mais vale dar dez minutos de uma mãe plena e focada do que duas horas de uma mãe dispersa. Obrigada pela possibilidade de fazer diferente pela minha pequena (mesmo sem dar o devido uso à meia que coloquei junto à porta de casa para colocar o telemóvel).

Por fim, 2025, quero agradecer-te por me teres aberto a porta do "quero dar de volta à sociedade" (que também é um resultado indireto da terapia). A clareza de perceber que dificilmente vou conseguir trabalhar na vila com o retorno financeiro que tenho atualmente, não implica que não possa tentar de alguma forma fazer a diferença. E ainda que a formação de bombeiros seja uma gigante pedra no calcanhar de muita gente, que eu sinta que já teria desistido se não fossem tantas as vozes da discórdia (o meu eu mais sádico diz que tenho que me aguentar só para que não possa haver um único "eu bem te disse que não eras capaz"), obrigada por esta oportunidade de ser eu.

Chegámos ao fim comigo cansada e exausta e extenuada, porque no meio de tanta vida a acontecer decidi que ainda tinha tempo para trocar de empresa, a nível profissional, mas continuo a defender que mais vale arrepender-me das decisões, de mudança, que tomei já com os dois pés lá dentro (estou a roçar o final do primeiro mês e ainda não há bandeiras vermelhas de alerta, o saldo está positivo).

Obrigada, 2025, por tantas oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal. Avisa o teu seguidor que a fasquia está alta (não são as expectativas porque o ano será o que eu fizer com ele), o meu melhor EU está a ser limado e aperfeiçoado, ele que venha cheio de coragem para me aturar!

23 de dezembro de 2025

Profissão vs passatempo

Bom dia de terça-feira, pessoas giras!

Hoje é dia de me sentir PLENA e CONSCIENTE, que é como quem diz que tive uma sessão de saco de pancada e nem sei muito bem para que lado me voltar 😁

Na semana passada, andei em modo intensivo de formação em TAT (Tripulante de Ambulâncias de Transporte). Portanto, foi a altura de aprender os procedimentos para reanimar alguém em paragem cardio respiratória e perceber que um dos erros mais fáceis de cometer é causar um penumotórax num bebé (insuflar o bebé como se fosse um adulto). Foi também um dos módulos de formação mais caóticos, entre trocas de formadores (devido a saídas em serviço) e inconsistências de informação.

Esta semana, foi dia de finalizar o módulo e preparava-se uma repetição do mesmo modo acelerado sem pré-aviso, que me levou a meter os pés à parede. É verdade que a minha "explosão" não me afetou como antes, mas escrevo aqui porque preferia não ter "explodido" e quero ter isso bem presente daqui para a frente. Somos um grupo bastante heterogéneo, com prioridades muito diferentes e em fases da vida que em nada se alinham. Mas deveríamos ter todos uma capacidade desenvolvida, tendo em conta aquilo que nos propomos fazer no futuro, que é a empatia com o próximo, juntamente com uma tentativa mínima de nos colocarmos nos sapatos da outra pessoa.

Ontem, foi aquele dia que (em modo besta) a farda teria ficado toda no quartel, junto com um "obrigada pela oportunidade e gostei muito de vos conhecer", mas há demasiada gente à espera que eu desista, à espera que eu não consiga e pronta para dizer um "eu bem te avisei" ou "eu tinha razão".

Quanto mais eu percorrer um caminho que é só meu, que é mais introspectivo, mais em modo ouvir, calar e desvalorizar, mais espaço haverá para eu ser mais eu e amar cada pedacinho dessa pessoa. Portanto, levantar a cabeça, dar o peito às balas e seguir viagem, com a certeza de que aquilo que eles julgam em mim diz tanto mas tanto sobre eles (quer seja sobre o tempo que roubo à Catarina - porque também já o roubaram a alguém, quer seja sobre as minhas prioridades - porque não é aquela casa que me paga as contas no final do mês e ter esse conforto não é para todos).

No meio desta aventura, questiono a minha vida laboral... Porque para que exista retorno é necessário que haja entrega (e não me refiro à entrega de trabalho desenvolvido, visto que ainda agora ali cheguei). Entrega emocional, envolvimento, paixão... Aquelas pequenas coisas que podem fazer desta relação (profissional) mais profunda e que abrem a porta para um desenvolvimento conjunto. Só não me posso esquecer que estas ainda são as nossas primeiras semanas e que as expectativas não podem escalar gigantescamente para que a fase da "lua de mel" não seja derrotada em 10 minutos.

Seguimos fortes (ou pelo menos tentamos). Boa semana!

24 de novembro de 2025

It's the final countdown! (Pela não-sei-quanta-ésima vez)

Olá, pessoas giras!


Hoje é o dia... De fazer um balanço de quase 19 anos (falta mais ou menos um mês) desde que terminei a minha licenciatura e o mundo profissional sempre foi uma gigante montanha russa, daquelas em que é preciso voltar atrás para ganhar balanço e seguir em frente.

Quando terminei o curso, já estava a estagiar no instituto tecnológico e nuclear numa tentativa (número 1) de conquistar um lugar no mundo da investigação científica. Foi uma experiência mista entre investigação e secretariado (para conseguir ganhar uns trocos), que rapidamente me revelou que o meu caminho não era por ali. Eu, miúda conhecida pelas suas boas notas, concluí o curso de Matemática, no ramo de especialização científica, com média de 13 e toda a gente me fez sentir que essa nota não servia para nada (porque, efetivamente, no mundo da investigação que vive de bolsas essa nota não é suficiente).

Num centro de Novas Oportunidades, em Lagoa, seguiu-se a aventura de ser senhora formadora (número 2). Foram dos piores 5 meses da minha vida, mas trouxeram-me um dos melhores "apêndices" à minha vida: o meu Renault Clio. Lembro-me perfeitamente do pânico em perceber que para dar formação nas vilas / aldeias em redor, ia necessitar de conduzir, e de termos comprado o carro debaixo do mote "nunca te esqueças que ele come e bebe contigo à mesa".

No desespero de fazer uma fuga rápida, aceitei um estágio profissional através do IEFP, numa empresa se transportes, a fazer gestão de tráfego (número 3). Foi aqui que senti o meu primeiro contacto direto com a vida real do mundo profissional: uma empresa familiar, com profissionais da velha guarda com todos os tiques de relações interpessoais tóxicas, motoristas de camião com todas as queixas características da profissão e um gestor novo e alternativo a tentar mudar o mundo.

Ao fugir, tropecei novamente num centro de Novas Oportunidades, desta vez, na escola profissional Gustavo Eiffel, na Amadora (número 4). Estávamos em 2009 e eu, na carreira de senhora professora inocente, consegui perceber que a desigualdade salarial entre géneros era efetivamente um tema na minha vida. Mesma função, mesma experiência, mesma data de entrada na empresa e salários diferentes. Aqui, deixei-me contaminar pelo ambiente descontraído entre colegas (uma equipa porreira, praticamente toda na mesma faixa etária) e, quando dei por mim, nada fazia sentido e eu nem queria ter que interagir com os colegas.

Na VASP, encontrei a fuga seguinte (número 5). As frases feitas de "estudos de mercado" e "modelação de reparte" converteram-me e abriram-me a porta para aprendizagens que trago comigo até hoje. Foi lá que as consultas em SQL começaram a ganhar sentido, foi lá que o curso de Matemática que tirei, com uma especialização, ganhou significado e foi lá que aprendi a gerir frustrações com os colegas de trabalho, porque gostava mesmo do que fazia. Fiz um contrato de estágio, por 6 meses, a ganhar 750€, sem direito a subsídios nem nada do género. Ao fim desse tempo, renovaram-me o contrato de estagiária, 6 meses, porque tinha regalias para ambas as partes e, depois disso, na hora de conversar sobre o futuro, sugeriram fazer-me um contrato de um ano com as mesmas condições mas com subsídios e a fazer descontos. E eu tenho que confessar que, a proposta de ser estagiária pela terceira vez na mesma empresa me soou a ofensa.

Paralelamente, no mês em que faria um ano de casa na VASP, fui contactada por um centro de Novas Oportunidades, na Escola das Profissões da Amadora (concorrência direta do centro em que tinha trabalhado antes), para dar formação em part-time. Precisavam mesmo de um formador da minha área para conseguirem certificar os formandos e eu achei que era a altura certa da vida para trabalhar na minha área durante o dia e dar formação à noite. Entretanto, souberam do processo que eu estava a viver na VASP para estagiar pela terceira vez, e puseram-me no colo aquilo que pareceu uma proposta milionária e não deu para resistir. Voltar à formação de adultos revelou-se a experiência número 6 e nem a senti como fuga, foi mais um "vou ver os meus anos de curso recompensados".

Nesta fase, durante uns 6 meses, acumulei a experiência número 7, como formadora no centro de Novas Oportunidades da ETIC.

Dezembro de 2011 chegou com a decisão de encerramento dos centros de Novas Oportunidades, a nível nacional, e vivi (pela primeira vez) o conceito de despedimento coletivo. Foram períodos maus e complicados, eu estava nesta altura a tirar o mestrado em ensino, que me tinham "aconselhado" para continuar a dar formação. E, quando me sugeriram ignorar o acordo de despedimento coletivo e voltar a trabalhar, recusei. Honestamente, nunca saberei se foi ou não a opção correta, mas foi a minha. E continuo grata por ter acontecido assim.

No Verão de 2012, por estar a frequentar um mestrado na Faculdade de Ciências e Tecnologia, tive a oportunidade de estagiar no BES (número 8), numa equipa de gestão de informação (os conceitos de SQL aprendidos na VASP jogaram a meu favor e nem os ténis pretos usados na entrevista me prejudicaram) e fui ficando. Não concluí o mestrado, fiz só o primeiro ano, mas o saldo foi francamente positivo (apesar dos altos e baixos, avanços e recuos, e das lágrimas).

A experiência número 9, na GEOBAN, foi uma tentativa de continuar a trabalhar na área da banca e fugir ao ambiente Novo Banco (pós liquidação do BES). Não foi uma boa experiência mas permitiu-me uma semana, a trabalho, sozinha em Madrid, para testar a minha resiliência e os meus limites.

Em Dezembro de 2015, juntei-me à equipa da PHC, como Data Scientist (número 10), uma função que estava na moda na altura mas que ninguém sabia muito bem o que significava. E não descansei enquanto não passei a ser Business Intelligence Developer, por ser o nome das funções que efetivamente desempenhava. Desta casa, trouxe a apresentação que fiz, perante 600 clientes, e todas as aprendizagens que fiz para que isso pudesse acontecer, especialmente a questão de Lewis Carroll, o criador de Alice no pais das maravilhas, "que caminho devo tomar".

Através da rede de contactos em comum, em Fevereiro de 2018, entrei na WPP, pela MediaCom, e não dei tréguas enquanto não me mudei para o GroupM. Inicialmente, o trabalho de automatização na MediaCom foi excelente e super recompensante, mas voltar a ter um líder que chefia pelo medo (o primeiro tinha sido no ITN) trouxe-me muitas amarguras. Quando as tentativas de fuga começaram a ser demasiado intensas, passaram-me para o GroupM mas a bagagem foi comigo. Consegui endireitar-me, fazer funcionar e tentar ser feliz, mesmo sabendo que não me alinhava com o líder utópico daquela casa. Durante a licença de maternidade, mudanças aconteceram e o regresso foi péssimo. Trouxe muita coisa no coração, desta parte do percurso, e a certeza que as mulheres do signo Carneiro, mal resolvidas, são a pior espécie que pode existir no mundo.

Em 2022, com uma bebé de um ano dentro de casa, tornei-me data analyst na Revolut (número 12). Facilmente, recordo o tanto que ouvi dizer mal desta casa, do ambiente tóxico e da exigência desmedida. Defendi sempre que as pessoas fazem a diferença e que nem todas as equipas são iguais. Mas cedo percebi que a correspondência com a vaga esta meio debilitada, que o Python seria a minha competência base (que embora goste não nutro nenhuma paixão assolapada e que isso só piorou depois dessa experiência) e que estaria limitada a fazer visualizações em Looker.

Quando, no mesmo ano, a proposta da Tyson Foods me caiu no colo, para ser data modeler (número 13), não houve hesitação possível. Até hoje, continuo a sentir que foi a melhor função que desempenhei, com as melhores dinâmicas e a melhor estrutura corporativa (mesmo a pagar melhor a homens do que a mulheres na mesma função e com o mesmo nível de experiência). A ideia de uma equipa em Lisboa surgiu de alguém que acabou por ser afastado da empresa e, consequentemente, numa contenção de custos, lá veio o despedimento colectivo (mesmo na altura em que eu lutava com o cancro da tiróide).

A Hakkoda apareceu na minha vida, quando terminava a baixa médica e não queria ir para o subsídio de desemprego ficar sem trabalhar, associada a um sentimento de exploração (dada a regressão na banda salarial e o conceito de consultoria). Mas não foi a pior experiência do mundo. Proporcionou-me duas viagens à Costa Rica, uma a ponderar o divórcio e outra em modo "vivir la vida loca". E a única falha, foi na hora de sair: não negociei o ordenado na futura empresa na esperança de uma contraproposta para ficar (algo que sempre achei que faz zero sentido). Big mistake!

Em Julho de 2024, juntei-me à Bose. Aprendi o valor do som e aprendi também o valor da autovalorização e da negociação. Dei por mim com salário igual a colegas com menos 10 anos de experiência e cedo perdi toda e qualquer motivação para mostrar valor e entregar aquele trabalho extra diferenciador. Não senti em nenhum momento que esta experiência tivesse corrido bem (excepto nos eventos de empresa presenciais e nas regalias físicas que vou guardar). O meu sistema nervoso absorveu a desmotivação e tive crises de ansiedade e picos de tensão (cheguei mesmo a ser hospitalizada sem ficar a perceber o que se tinha passado). Descobri um mega tumor no fígado e uma gastrite crónica. Esgotei todos os plafonds do seguro de saúde me apenas três meses. E ainda, vi a minha filha a ser operada e escolhi ficar de baixa a tomar conta dela. Portanto, senti esta experiência de braço dado com circunstâncias estranhas e senti que precisava de um recomeço (obrigada pelo empurrão, quando decidiram promover o meu colega de equipa).

Agora, enquanto fecho a porta número 15 e aguardo o começo 16, sinto uma falta gigante de colocar tudo em perspectiva. Culpo-me, mentalmente, por aceitar este desafio. Quero acreditar nele, nas regalias que proporciona e nas portas que abre, mas não consigo. Questiono-me se senti o mesmo noutras alturas, face a outras mudanças, e entristeço-me.

Infelizmente, sei que aquilo que procuro não está incluido neste número (embora possa ser uma forma mais rápida de lá chegar). Odeio pôr isto por escrito e reconhecer isto não só para mim mas para o (meu) mundo, odeio o trabalho remoto. Mas não odeio ter-me colocado nesta situação, sinto e sei que é o melhor para a minha filha, que ela não merecia crescer na Amadora, sem saber se ao final do dia os pais conseguiriam chegar até ela em tempo útil, numa dinâmica de stress constante (aqui onde fica tudo a 5 minutos de distância já é o que é, nem quero imaginar naquele contexto). Eu sou de pessoas, de escritório, de cafés na copa a meio da manhã, só não sou de mudar de vida da noite para o dia de bolsos vazios (tenho ricos pais mas também tenho contas para EU pagar).

Desculpem lá a enxurrada, foi o que se arranjou. Boa semana!


17 de novembro de 2025

Odeio a mudança... de horário

Olá, pessoas giras!!

Cá estou mais um dia, para fazer uma síntese da animação que têm sido os últimos tempos aqui deste lado. A verdade é que não tenho sentido grande capacidade de colocar os temas em perspectiva e lhe atribuir um significado mais romantizado porque (Pasmem-se!) ando exausta.

A Pintinha foi operada para remover amígdalas, adenóides e colocar tubinhos, o que significa que ficámos duas semanas de baixa, praticamente sem sair de casa, a descobrir que um dia afinal tem 50 mil horas para ocupar e fazer atividades com uma criança em recuperação. Quando o pai vinha ficar com a piquena, para aliviar a carga, a mãe ia enfiar-se no quartel em formação para bombeira voluntária.

Simultaneamente, deu-se a mudança para o horário de Inverno e com ela a sensação desesperante dos dias curtos. Aquele escuro noturno às 5h da tarde, quando nem chove nem se vê uma nuvem no céu, é claramente algo que não me agrada nem me convence.

E, embora tenha a plena consciência que não foram estes os únicos fatores a influenciar a qualidade do meu sono, foi aqui que percebi que algo errado não estava certo comigo.

Aquele momento em que nos apercebemos que não há mais volta, que já usámos todas as desculpas e que o nosso caminho não se faz por ali é brutalmente assustador. Quando isto me acontece, eu claramente não sei lidar, porque continuo a identificar o padrão da "fuga" como a minha estratégia favorita (e não gosto disso)... E "o corpo é que paga".

Muito honestamente, sinto que esta é a primeira vez que mudo de emprego sem sentir que o mundo vai acabar se correr mal. A loira da minha vida tem feito de mim uma mulher capaz: ponderada e comedida nos gastos (mais!), a roçar um lado avarento e agarrado bem conhecido no seio familiar.

Adoro sentir que, se der tudo para o torto, tenho planos alternativos ao pé da porta, que posso mudar radicalmente de "tipo de vida / tipo de profissão", sem colocar a máscara de menina alucinada que foi tirar uma licenciatura em Matemática e fala mais do que pensa (é assustador sentir este fecho eclair a funcionar e não dizer aquilo que efetivamente tenho vontade).

Mas, não quero ser hipócrita, não gosto de mudanças e não gosto de trabalhar (ainda que acredite e defenda com todas as minhas forças que toda a gente precisa de trabalhar, se não for para pagar as contas, que seja para ocupar o cérebro com a rotina). E se há algo que eu ainda não aprendi, é sobre a melhor forma de ajustar os comportamentos, os pensamentos e as atitudes, com os 30 dias de pré-aviso que damos a uma empresa. Vou continuar a defender que estes dias não fazem bem a nenhuma das partes, que há sempre um sentimento de traição no ar que não trás nada de bom e que as reações em cadeia têm tudo para libertar 50 mil radicais livres e dar lugar a um incêndio difícil de controlar (e quem é que tem estado a viver a formação de bombeiro voluntário "on fire", que é?).

Ando a sofrer (para dentro) e a lutar comigo (no mundo dos sonhos), a cumprir algo em que não acredito porque os meus valores sobre brio profissional assim o pedem e a esgotar-me, a não me proporcionar a devida paz e tranquilidade que as boas decisões trazem. Como sempre, "o problema não és tu, sou eu".

Boa semana!

10 de novembro de 2025

PWIT Awards 2025

As Portuguese Women in Tech são uma comunidade que eu amo de paixão.

O trabalho que a Inês e a Liliana fazem, ao serviço da diversidade e inclusão, é algo de espetacular e eu orgulho-me de, ao longo dos anos, ter trabalhado em dar visibilidade a esta iniciativa nas empresas por onde vou passando.

Este ano, o meu foco foi nas nomeações para os PWIT Awards (porque tentei fazê-lo no ano passado e os timings eram "apertados"). Procurei fazer ver ao (meu) mundo que não custa nada reconhecer o valor das mulheres que trabalham ao nosso lado e nomeá-las para as respetivas categorias (não lhes caí um bracinho, nem lhes tiram metade do ordenado) e percebi que não é uma tarefa assim tão fácil como aparenta.

Quando vi o meu nome nas cinco mais nomeadas da minha categoria, fiquei muito feliz. Senti que afinal esta coisa de fazer os outros verem que há um longo caminho a percorrer, e que o objetivo não é que nos tornemos todos iguais se não for mesmo isso que queremos, mas que tenhamos acesso às mesma oportunidades compensou. 

MAS... [Quem me conhece já sabe que dificilmente me escapo sem um mas.]

Internamente, esta disseminação de informação, foi uma luta mais difícil do que eu esperava e abriu perspectivas que eu dispensava ter, mas que eu resolvi com um "não se preocupem, eu não tenho qualquer hipótese face às outras candidatas". Ainda há empresas que vêm este reconhecimento como um atrativo para recrutamentos de outras empresas, enquanto eu penso que se a pessoa estiver bem e a empresa fizer um bom trabalho com as pessoas podem vir todos os recrutamentos do mundo que não vai fazer diferença (e isso sim, deveria ter sido a preocupação).

Qual não foi o meu espanto, quando vi o meu nome no top 3...

No passado sábado, 8 de Novembro, fui até Lisboa participar no evento da entrega de prémios. Não trouxe troféu nenhum, mas ninguém me rouba o coração cheio e o orgulho de ver o meu nome no meio de tantos nomes, de tantas talentosas mulheres, das mais diversas categorias na área de tecnologia.

E, hoje, assinei o contrato com a entidade patronal número 50551, ou algo do género, porque se o teu carocha de 40 anos, restaurado, com estofos em pele e pintura metalizada, não tem valor é porque estás no lugar errado (qualquer clube de carros clássicos te vai mostrar isso mesmo).