Era um lindo dia de manhã, de madrugada, em que deixei a piquena na escolinha e me preparei para ir até ao quartel, fazer um teste que tinha deixado pendente da noite anterior (fruto daquelas coisas bem combinadas e com a devida antecedência, mas que eu bati o pé porque tinha a Princesa comigo).
Era um lindo dia, frio, de sexta-feira. Seria o primeiro dia de uma nova aventura, sair do quartel com a turma de formação, ter formação fora e pernoitar fora de casa. E eu, como chefe de turma, fui chamada para identificar o material que iríamos levar.
Eis que, de repente, estou a ser chamada para a sala dos chefes, e recebo um valente sermão... Sobre pessoas que querem ser protagonistas, pessoas que se julgam melhor que as outras, pessoas que se querem destacar. Sobre pessoas que não têm noção de compromisso e não entendem que não podem desistir das coisas de um dia para o outro, porque isso impacta toda a turma. E muito mais disto.
Neste momento, toda a vontade que eu já não tinha para ir até Fanhões, morreu. E a loira da minha vida só me fez sentir que o que tinha começado como uma lufada de ar fresco, rapidamente se transformou num cenário de tortura. Mas, era uma formação que estava a meio, e lá me orientei para me fazer à estrada.
Ainda não tínhamos terminado o primeiro exercício da formação, e já este cenário estava a ter uma mudança radical com requintes de malvadez. Comentei que tinha estado a receber um sermão gigantesco e ouvi um "Alguém fez queixa de ti. Não gostava que o fizessem comigo, também não gostei que o fizessem contigo". E perdi o chão.
A cabeça viajou, o espírito colapsou e eu perdi-me de mim. Tentei colar todo o discurso que tinha ouvido em mim, e nas minhas atitudes, e, depois de anos e anos a lutar para reconhecer o meu valor próprio, estar alguém a pedir-me que me anulasse e ignorasse o meu valor, sem sequer me dizer o que efetivamente eu tinha feito e sem ouvir a minha versão da história, deitou-me por terra.
Cavalheiros, como bombeira sou 0, ainda que duvide muito que estejamos todos ao mesmo nível (e duvido também que a formação tenha feito alguma diferença nisso - a não ser quando aprendi que o bebé nasce dentro da placenta, andei enganada estes anos todos), mas estou muito longe de ser igual. Se eu gostava de ser uma cabeça de alho chocho rodeada de gomos de tangerina? Amava! Mas nunca seria a mesma coisa.
Nessa noite, pensei arrumar a tralha e vir embora. Agarrei-me à pouca força que ainda tinha e contive o grito de raiva "qual de vocês é que teve a lata de fazer queixa de mim mas não é crescidinho o suficiente para me enfrentar cara a cara!?". Claro está, que se já me tinham perdido antes (com um sermão que eu não entendia), o resto do fim de semana foi feito a mínimos olímpicos.
Sim, adorei ter chamas a rolar por cima da minha cabeça. Sim, adorei perceber a dinâmica dos procedimentos, é super fácil entender metade das coisas quando se conhecem os conceitos básicos como "ar quente sobe". Mas... Senti sempre que aquilo não era para mim. E mesmo que quisesse pensar que a ajuda que queria efetivamente dar, era na emergência médica, não preciso de ninguém a pisar a minha sanidade mental.
Uma pessoa pensa abdicar do seu tempo, para que outros possam ter mais qualidade de vida e é assim que nos tratam, com acusações infundadas que não seriam repetidas se eles não acreditassem nas mesmas. Zero que preciso disso para mim! Prefiro formar um grupo de auto-ajuda que fica em silêncio e sem telemóvel, várias vez por dia e por semana 😂
Estava a tentar provar o quê e a quem? Que há lugar para mim e para ser valorizada na vila, que também para mim fiz o certo ao voltar para a terrinha... Mas é mentira, mentira! E o aperto no peito que é ter que dizer ao meu sobrinho, vou desistir pelas mesmas razões que tu, pessoas a serem pessoas.
Estava a valer a pena? Teve muitos bons momentos, teve situações giras, teve experiências do caraças... Nas primeiras semanas. Nas últimas, deixou de ser uma coisa leve e passou a ser um frete, sem planeamento, com datas e obrigações que simplesmente apareciam do nada.
Se custa desistir? Horrores! Não me conheço por desistente, mas a minha teimosia não ganha à minha sanidade. Vou abraçar o meu afinal-ainda-não-é-desta "padrinho", vou agradecer ao Segundo Comandante (apenas pelos nossos momentos de regresso ao passado) e atribuir a culpa ao corpo e ao avançar da idade (se alguém espera de mim que vá comprar guerras nesta altura, estou fora).
Afinal, vou apenas mostrar que aprendi algo com eles... Primeiro eu, depois eu, a seguir eu e depois os outros!
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