Era uma vez uma Princesa que vivia num reino totalmente desconhecido...
Esta Princesa nasceu e cresceu neste reino, nunca foi propriamente feliz porque se encolhia para caber, para agradar, para tentar ser igual, e teve a oportunidade de sair e conhecer o mundo. Durante os muitos anos em que se manteve "fora de portas", a Princesa viveu! Teve bons e maus momentos, experiências excelentes e outras menos boas, conheceu pessoas diferentes, pessoas mais ou menos parecidas consigo e carregou os seus traumas por diversos caminhos, sempre com a sensação que o reino era algo que tinha ficado para trás. Tudo isto numa altura em que a vida não se fazia atrás de nenhum ecrã.
Esta Princesa taurina viveu sempre de emoções, naquele desequilíbrio fofinho do "ou me levam às lágrimas ou me fazem explodir de alegria", sem situações mornas ou de meio termo, como se a intensidade fosse aquilo que lhe permitisse sentir-se viva. E foi nesta altura que, pela primeira vez, ela questionou quem era... Faziam-na acreditar que este comportamento demonstrava bipolaridade.
Esta Princesa foi sempre intensa, e namoradeira. Piscava o olho aqui, dava 5 minutos de atenção ali, punha uma mão numa perna ou num ombro. Diziam-lhe que era o reflexo de ser a carinha laroca de um grupo, efeitos de ir para a frente de palco. Mas, neste tempo, as relações existiam e era feitas de estabilidade, de segurança e de respeito.
Nesta altura, existiu um Principe, que surgiu pela primeira vez montado num cavalo branco, depois arranjou um cavalo preto e foi ele que a ensinou a montar. [Há coisas que não se esquecem e aquele Renault Clio preto vai ser sempre uma das minhas paixões assolapadas... Minhas não, da Princesa.] Com ele, tudo foi feito, supostamente, da maneira certa. Conheceram-se através de amigos em comum, exploraram isso em privado, depois com os amigos, apresentaram-se famílias, partilhou-se vida e experiências. Mas a Princesa não se conhecia verdadeiramente, não se amava a si mesma, não confiava em si. Era uma relação bonita carregada de fins e recomeços e mil pessoas pelo meio, de parte a parte, e não há como viver permanentemente a perdoar e contentar-se com migalhas.
Quando a Princesa fechou esta porta à magia de acreditar que podia ser amada sem ser pela metade, fechou muitas mais só para poder fugir de uma realidade que ela não queria para si. E passou a navegar de relacionamento em relacionamento, ou pelo menos era isto que diziam as pessoas à sua volta. Ela nunca sentiu que as suas relações fossem desprovidas de sentimento, desapegadas, mas nunca teve dúvida que se baseavam em conveniência e fuga - ela já não tinha o seu grupo de amigos e não queria estar sozinha. Mas ao menos sentia que, ali, o que ela sentia não era solidão, era solitude.
Por circunstâncias da vida, a Princesa teve que voltar a viver no reino e, quando lá chegou, a realidade tinha mudado brutalmente e o tipo de relações, que ela tinha conhecido nos últimos anos, já não existia. Tudo se tinha transformado e todas as relações (namoros, amizades, casamentos...) se baseavam em desapego e conveniência. E o sentimento de solidão que tinha ficado bem arrumado numa gaveta, voltou para se transformar e para a vestir como se fosse um "saco de batatas" (aqueles vestidos que servem bem a toda a gente mas não ficam bem a ninguém).
Agora, a Princesa luta para colocar a solitude de volta no seu lugar, ainda sem sucesso mas com pequenas vitórias, passo a passo e um dia de cada vez. Já não ambiciona casar, mas sente e sabe que um companheiro será sempre a melhor companhia para viajar.
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