Na semana passada, estive no céu. Andei por lá de mão dada com o meu mentor, um loiro de cabelos cacheados, com uma túnica branca (daquelas da antiga Grécia) com cordões dourados e umas sandálias aladas nos pés. Encontrámos um grupo de 4 crianças a brincar e ele levou-me até uma delas, uma menina, meio loira, com o cabelo aos caracóis que me chamou de "mamã" (tinha mesmo muitas semelhanças com a Catarina mas não era ela) e à única pergunta que lhe fiz, mesmo antes de me dar um abraço apertado, respondeu "Se tu quiseres!".
Sempre fui uma sonhadora, sempre achei que os meu sonhos e pensamentos eram meus e sempre acreditei no poder da nossa imaginação como guia para as criações da nossa vida (mesmo as mais mundanas, como cozinhar uma refeição diferente).
Saí do céu e desci para o meu abismo, sozinha, para explorar o meu lado mais obscuro. Havia uma presença escondida debaixo da escada, um pedaço de mim, com medo de mim mesma, que pude acolher e encaixar de volta no seu lugar no meu ser, envolto num amor incondicional.
Dizem que quando alguém entra no processo da cura, da transformação para ficar mais próximo do seu verdadeiro eu, passa por uma fase de tristeza profunda e inexplicável, daquelas em que a apatia se instala porque há algo muito maior ou superior em jogo. E que o mais importante é acreditar que esse esforço vai dar frutos, que vai abrir a porta a uma vivência mais plena e harmoniosa. Sempre fui uma daquelas pessoas que tenta acelerar o relógio, que vive em função "da próxima aventura", que salta de uma ideia tonta para uma ideia maluca sem se dar o devido tempo para respirar, para assimilar, para ser.
Envolvi-me numa chama de cura, com a minha filha no colo, e chamei a minha família até mim. Um por um, foram entrando naquele local de amor, redenção e proteção. Tinha duas almas negras no meu núcleo e uma terceira que teve direito a um espaço só seu. Quando chamámos as suas crianças interiores para brincar, tive aquela sensação de estar num recreio da escola, rodeada de caras familiares. Na hora da despedida, houve abraços mais ou menos sentidos, mais ou menos apertados, mas todos calorosos e amorosos. Abracei a minha mãe de uma outra vida, aquela que naquele momento mais precisava de colo e seguimos o nosso caminho de compaixão, empatia e gratidão.
Sempre fui uma sonhadora e sempre achei que os sonhos são o espelho da alma. Não me recordo quanto tempo estive sem conseguir sonhar, sem conseguir ler, sem conseguir simplesmente estar... E reencontrei essa parte de mim. Estou feliz e em paz e muito mais em mim, mesmo que a imaginação rume para sítios demasiado distantes e fantasiosos.
