O quarto tinha um roupeiro embutido, duas camas com as respetivas cabeceiras em modo suporte de candeeiro e depósito de quinquilharia, um módulo de gavetas a separar as duas camas (que foi depois substituído por uma aparelhagem com porta de vidro, daquelas que dava para duas cassetes, tinha rádio, leitor de CDs e gira discos) e duas escrivaninhas, daquelas com gavetas, prateleiras, módulos de portas e espaço de arrumação por baixo do tampo e até banco.
Tenho várias memórias daquele quarto muito vividas... Os posters da equipa do Futebol Clube do Porto, várias imagens do Vítor Baia e do Fernando Couto, os cromos do Bollycao "Tou" e os fantasmas da Matutano colados por todo o lado, as fotografias também coladas nos móveis, os posters do Tom Cruise e do Brad Pitt, escondidos na parte de dentro do roupeiro e as colchas de cama, sempre em pares iguais, em diferentes tons de cor de rosa (nunca tive dúvida sobre o motivo pelo qual passei a odiar esta cor).
Quando eu tinha 5 anos, ela já tinha os 12, eu encontrei a avó caída no quintal, ao fundo das escadas, sem vida. Pelos vistos (eu não me recordo), acordava ao gritos, em pânico, e acordava-a também. Aquela parte menos boa de dividir o quarto, se algo está a acontecer vai acontecer a todos.
Quando eu fiz os 10 anos e era uma criança "respondona" e muito inteligente (só se esqueceram de estimular a minha inteligência emocional), ela tinha 16, vestia de preto, gostava de ficar no escuro e ouvir música deprimentes (leia-se músicas normais e sentimentais próprias da época). As diferenças pareciam gigantes e aquela influência... Desajustada.
Talvez um ou dois anos mais tarde, iniciou-se a saga do "só podes ir se levares a tua irmã" (ou "tens que ser tu a fazer que ela é muito nova") e passei a ser um estorvo, com a vantagem de ter os amigos jeitosos da minha irmã a tomarem conta de mim, de vez em quando, para ela poder dar uma escapadinha.
Por volta dos meus 16 ou 17, era eu que me vestia de preto, esticava o cabelo compridão, deitava me no quarto às escuras e chorava ao som de Tony Braxton, no seu mais sentido e depressivo Unbreak My Hearth (felizmente, a fase do black metal chegou mais tarde e o impacto já não foi tão intenso).
Hoje, digo que ouço música boa do tempo da minha irmã (Bon Jovi, Brian Adams, Police...) e que adoro boa música portuguesa (porque a prima Ana, quando deu os primeiros passos como vocalista de uma banda, só cantava em português).
O nosso contexto é uma das nossas maiores influências, cabe nos a nós fazer diferente se for esse o nosso desejo e é preciso ter sempre presente que exige força de vontade porque, muitas vezes, deixar-se ir ao sabor da corrente é mesmo a escolha mais fácil.
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